Mês da Mulher - Amagis entrevista a juíza Flávia Birchal de Moura

19/03/2019 - 17:00

Na Magistratura há mais de 20 anos, a juíza Flávia Birchal de Moura concedeu entrevista para a série especial que a Amagis está publicando em comemoração ao Mês da Mulher. Entre outros temas, Flávia Birchal falou sobre os desafios no início da carreira. “Naquela época, a juíza tinha de provar que era uma boa juíza”, disse a entrevistada, destacando ainda a crescente presença feminina em cargos nos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. 

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Como é ser magistrada em um Poder como o Judiciário?

Tenho quase 25 anos de Magistratura. Ingressei  na carreira quando o número de mulheres era menor. Acredito que tenha passado por problemas que hoje talvez não existam. Como juíza criminal, tive essa percepção maior. Delegados e policiais militares, inicialmente, respeitam menos a juíza do que o juiz. O juiz eles respeitam porque é juiz, a mulher juíza eles só vão respeitar depois que ela mostrar serviço, mostrar que é firme. Senti muito isso como juíza criminal, a impressão que eles te colocam à prova. Naquela época, a juíza tinha de provar que era uma boa juíza.

Qual problema a senhora já enfrentou por ser uma mulher juíza?

Nunca tive nenhum problema no papel, com o trâmite processual, mas na questão administrativa as pessoas acreditam um pouco menos na mulher. Acham que a mulher não tem pulso suficiente para bancar algumas coisas. Inclusive as partes, os advogados nas audiências, acham que a juíza não vai conseguir fazer a ordem de conduzir uma audiência.

Qual a habilidade a senhora acha que a mulher tem mais acentuada na Magistratura?

Acredito que temos um maior jogo de cintura em algumas situações, mais acentuada do que o homem. A mulher possui um jeito melhor de tratar algumas problemas que, ao meu ver, não é tão de frente, buscando amenizar a situação no enfrentamento dos problemas.

A senhora acredita que a mulher tem perfil maior para a conciliação?

Aparentemente, sim. Mas tem juízes homens que gostam também de fazer a conciliação. Acho que a mulher gosta mais do que o homem, ela tem mais afinidade, por questão do seu próprio ser. A gente concilia família, filho, trabalho, serviços de casa, aprende a conciliar tudo isso desde nova. A mulher já tem esse perfil de conciliação, é responsável por um parcela maior da casa, dos filhos. Hoje, os homens ajudam muito mais em relação a anos atrás.

Como a senhora avalia a presença das mulheres em outros cargos de poder e direção?

A conquista deste espaço de trabalho pelas mulheres é fruto de uma luta incessante. Antes o mundo era mais masculino, mais machista. Quando iniciou o movimento feminista com a luta pelo direito ao voto, em seguida com a conquista no mercado de trabalho sendo reconhecido. A partir da década de 1960, a mulher começou a lutar não só pelo mercado de trabalho, mas também por sua independência, e tudo isso veio sendo conquistado pelas mulheres, criando também seus filhos. A realidade vai mudando, mas só vai ser concreta quando homens e mulheres estiverem entendendo que essa luta é conjunta. A geração de hoje tem outra cabeça, assim como as que virão. O fato de meus filhos terem sido criados com a mãe trabalhando o dia inteiro, manhã, tarde e noite, o fizeram ver outra realidade.

Qual mensagem a senhora transmite para juízes e juízas?

Queremos, tanto homens e mulheres juízes, que as coisas fluam e tenham os mesmos fins. Aplicar a justiça da melhor forma possível, prestar um bom atendimento aos jurisdicionados, a diferença talvez seja a forma desta aplicação entre mulheres e homens. O como fazer talvez seja diferente, mas o final é o mesmo.   

 

     

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